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Viver a Ciência

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Banha da cobra quântica versão para impressão enviar por e-mail
24-Abr-2009
ImageNa viragem do século XIX nascia a física quântica, trazida por Einstein e Planck, com a hipótese arrojada e fora de senso comum de que a luz existe em quantidades bem definidas.

Mais de um século decorrido, a física quântica está na moda e mesmo James Bond já se rendeu às maravilhas do marketing quântico. Recordo uma adaptação livre do conceito de jornalismo que passou recentemente como reportagem da TVI, cuja primeira frase era "Tem aumentado o número de portugueses que recorrem à física quântica para melhorarem o bem-estar e a saúde". E prosseguia:

 

"Um analisador scanner e dois eléctrodos fazem o varrimento eléctrico intersticial. O nome é complicado, mas só graças a este sistema se pode fazer uma análise pormenorizada ao organismo. A medição é feita em apenas três minutos."

(...)

Um pequeno desequilíbrio pode evoluir para um grave problema de saúde como um tumor, a diabetes ou uma esclerose. Somos o que comemos e é partindo dessa premissa que quando falham os nutrientes o organismo perde a capacidade de reagir.

(...)

A física quântica aplicada à saúde é cada vez mais uma realidade em Portugal. Sinal dos tempos de uma sociedade cada vez mais stressante, mas também de uma nova forma de procurar o bem-estar do organismo."


É difícil encontrar algo que não seja um disparate. E nada disto tem a ver com física quântica. A física quântica tem a ver com níveis de energia de electrões no átomo, incerteza na posição e velocidade de uma partícula, como de algum modo as partículas também se comportam como ondas. A alimentação tem a ver com a física quântica na medida em que os alimentos são feitos de átomos com electrões que se distribuam por vários níveis de energia. Ou que a origem da energia dos açúcares produzidos pelas plantas é um fotão que excita um electrão num átomo de magnésio de uma molécula de clorofila. Mas isto é tão útil em termos de nutrição como dizer que a física quântica se aplica à construção de barragens. Um exemplo interessante é o dos transístores, frequentemente usado pelo Prof. Carlos Fiolhais. Os transístores, cujo funcionamento é explicado pela física quântica, estão espalhados por todo o género de geringonças, inclusive nas máquinas de lavar. Faria algum sentido dizer que cada vez mais portugueses recorrem à física quântica para lavar melhor a roupa? Algo anedótico, na medida em que os portugueses na realidade o que usam para lavar a roupa é água e detergente.

 

A ideia da física quântica como uma coisa fixe para vender a banha da cobra não foi descoberta pela reportagem da TVI. Por exemplo, o documentário new age "What the bleep do we know" defende que a consciência influencia a matéria. Um monge benze as moléculas de água e a estrutura cristalina passa de desarrumada e feia para linda e arrumadinha. Isto, por causa da física quântica, claro.  O documentário também defende que a meditação em massa pode reduzir as taxas de criminalidade violenta. Se for verdade, isto provavelmente significa que os criminosos eram as mesmas pessoas que estão agora a meditar.

 

A cultura científica não é hoje um dado adquirido. Por um lado a ciência é desvalorizada quando não interessa (aquecimento global, criacionismo), por outro a sua credibilidade é usada como arma de arremesso para vender curas e mezinhas que de científico não têm nada.

 

 

DM_BW_square2_edit292Autor:
David Marçal


 

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