| Pessoas |
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| 24-Abr-2009 | |
Aqueles que começaram há
pouco tempo a fazer ciência talvez não tenham a noção clara de que quem faz
ciência de forma competitiva e séria há alguns anos/décadas teve que relocar-se,
algumas vezes, mudando de cidade, de país e até de continente.
Além das complicações inerentes à deslocação física de uma cidade para outra de uma família inteira, há quem o faça várias vezes num pequeno período de tempo. Pior ainda é quando deixamos para trás alguém muito próximo. Os cientistas não fazem isso por algum sórdido prazer de ver os outros sofrer e simultaneamente de se autoflagelarem, mas apenas pela única e exclusiva intenção de trabalhar. Depois de passarmos a vida a estudar, a estagiar, a experimentar, sacrificando constantemente a nossa vida pessoal e a dos que nos rodeiam (que não têm culpa nenhuma), insistimos no mesmo erro, na mesma teimosia, como se alguma força misteriosa nos guiasse. Tudo isto apenas para trabalhar. Quantos profissionais teriam a capacidade de se desenraizarem visceralmente e consecutivamente para exercerem a sua profissão? As inúmeras deslocações e experiências de trabalho também têm recompensas. Há quem se esforçe por aprender a língua do país de acolhimento, há quem aproveite para viajar nas cidades e países vizinhos, há os que preferem deslumbrar-se nos museus e concertos, mas também há os que escolhem mergulhar na noite e na embriaguez das ruelas de cidades anónimas, que acabam por ser todas iguas. Qualquer que seja a distracção de fim-de-semana que escolhamos, há apenas uma coisa que é comum a todos os cientistas: as pessoas que conhecemos. Conhecemos infinitas pessoas, de todas as raças, religiões, nacionalidades e paixões. Embora nem sequer nos queiramos lembrar de algumas, outras há de quem não nos conseguimos esquecer. Pelos lugares por onde passei, o meu espírito foi sendo invadido e colonizado por um grupo estrito de pessoas, como se de uma infecção crónica se tratasse. Agora, estão sempre presentes. Para onde quer que vá, transporto-os sempre comigo. Quando planeio e executo experiências, ou quando preparo apresentações, inspiro-me nelas. Como explicaria o Chris estes resultados, com a sua clareza cristalina? O que faria a Leonor para resolver este assunto? E o que diria a Iris, após o seu momento de silêncio para digerir a questão em causa? Estas pessoas marcam-nos de tal forma, que a sua influência ultrapassa a esfera do trabalho. Mentores. O tempo vai passando, as experiências vão revelando alguns segredos da Natureza e, a determinado ponto, publicamos os nossos resultados, análises, previsões, especulações, teses, revisões, posters e outras comunicações que, por vezes, parece que foram arrancadas de dentro de nós como se de uma amputação crua e grotesca se tratasse. Os nossos frutos são conquistados exactamente da mesma forma com que o lavrador faz a sua colheita. Os seus frutos, que deram tanto trabalho a cultivar, que foram sujeitos a todas as moléstias, adversidades climatéricas extremas e dificuldades financeiras profundas, e que demoraram tanto tempo a crescer, recompensam quem os produziu e alimentam todos os que lhes têm acesso. Da mesma forma que o lavrador exibe orgulhosamente a maçã perfeita, nós rejubilamo-nos como se tivessemos revelado uma coisa extraordinária que ninguém sabia antes - o que é curioso é que o objecto de estudo sempre esteve presente perante o nosso olhar. Nós apenas revelámos o que sempre existiu mas que agora compreendemos de forma diferente! Com a verdade revelada, criámos conhecimento. E depois, perante a revelação de um facto novo, a vida nunca mais voltará a ser como era antes: passamos a olhar para o objecto de estudo em causa com a familiariedade de como se o conhecêssemos há bastante tempo. E dizemos: "não é óbvio?" Depois, voltamos a mudar de cidade e a história repete-se. É claro que a experiência adquirida e o conhecimento apreendido valorizam-nos blá, blá, blá mas isso não é o mais valioso. No fim, o que fica são os sorrisos que esboçamos quando revemos alguém. Hoje estou Feliz! Hoje revi alguém. Obrigado Anthony. Autor:Paulo Bettencourt, MSc Estudante de Doutoramento CPM-URIA Faculdade de Farmácia - Universidade de Lisboa; Este endereço de email está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email |