Hélder Maiato | Vencedor do Prémio Crioestaminal 2006

«é importante criar esperança, que isso fique muito claro. Que as pessoas vivam com esperança que é dada através da investigação»
«O prémio veio permitir contratar e manter um físico na minha equipa, o que foi absolutamente determinante. Sem esta combinação de especialidades não o tínhamos conseguido»


Helder Maiato coordena uma equipa de investigadores do IBMC (Porto) que desenvolve diversos projeto com base na aplicação da estação piloto de microcirurgia laser, mecanismo que permite aos investigadores alterarem o normal funcionamento da célula viva, através de uma perturbação estrutural no interior das células. Perceber o processo de funcionamento da divisão celular para poder combater o cancro é um dos tópicos indissociáveis do trabalho desenvolvido. A sua investigação continha ainda a convicção de que seria possível criar, em solo português, essa ferramenta completamente inovadora (só há duas em todo o mundo). Tudo isso valeu-lhe a vitória na edição de 2006 do Prémio Crioestaminal.
Em construção aquando da atribuição do Prémio, o mecanismo está agora em plena utilização. O investigador, que teve o primeiro contacto com ferramentas avançadas de microscopia e com o trabalho em células humanas durante o doutoramento em Edimburgo e que trouxe do pós-doutoramento nos Estados Unidos (New York State Department of Health, Albany, NY) os conhecimentos decisivos para colocar o projeto em marcha, destaca no entanto jamais vir a afirmar que o sistema está pronto. «Há sempre pontos que podemos otimizar», confirma.

Hélder Maiato encarou a implementação do mecanismo como um «desafio científico» e aproveitou o valor do Prémio promovido pela Associação Viver a Ciência e pela empresa Crioestaminal, para dotar a equipa de maior multidisciplinaridade. «O prémio veio permitir contratar e manter um físico na minha equipa, o que foi absolutamente determinante. Sem esta combinação de especialidades não o tínhamos conseguido», revela.
Consciente das vantagens da competição científica, mas adepto da colaboração entre laboratórios, Hélder Maiato apregoa total disponibilidade para abrir o recurso à comunidade científica. «Não faz sentido ser de outra forma. Acho completamente errado ter um sistema piloto tão poderoso como este e guardá-lo para nós», confirma o investigador, outrora estudante de Bioquímica na Universidade do Porto e agora colaborador da Faculdade de Medicina, lecionando Biologia Celular e Molecular.

A estação piloto de microcirurgia laser

O desafio era complexo. Aliada à parte intelectual que constituiria a equipa do projeto, estava a parte profundamente instrumental. Convidar as pessoas certas para combinar um conjunto de saberes. Mas também usar instrumentos óticos e físicos para transformar a estação num sistema que posteriormente permitisse responder a perguntas biológicas. A chave para o conseguir não fica em segredo: «construir uma equipa multidisciplinar», arrisca Hélder Maiato.
«Achei que, se tivéssemos a possibilidade de termos uma "agulha" ainda mais precisa do que aquela que usávamos para manipular os constituintes da célula e combinar isso com ferramentas moleculares, seria uma ferramenta extremamente potente para responder a determinadas perguntas». E deitou mãos à obra porque não havia (nem há) no mercado comercial nenhuma solução que disponibilize sistemas de microcirurgia laser com a resolução pretendida.
Mas nada foi feito às escuras. «Há uma boa dezena de laboratórios que estudam a aplicabilidade de lasers a sistemas celulares», confessa Maiato. E o trabalho prévio de validação desta abordagem também já estava feito pelo laboratório norte-americano. O que a equipa do cientista portuense fez foi integrar essa tecnologia para responder a perguntas específicas sobre a divisão celular que, na ausência desta tecnologia, se tornavam mais difíceis de responder.


A cura do cancro

Este potencial concedido pelo sistema de microcirurgia laser de entender enigmas da divisão celular até hoje não solucionados transporta uma nova esperança de abertura de novos caminhos para a cura do cancro. Hélder Maiato não tem receio da expressão: «Eu acho que é importante criar esperança, que isso fique muito claro. Que as pessoas vivam com esperança que é dada através da investigação». É, no entanto, prudente: «É diferente dizer nós vamos estudar o cancro ou nós vamos curar o cancro. Agora, se o percebermos, obviamente é mais fácil combatê-lo. Enquanto continuar a ser um mistério, não sabemos por onde lhe havemos de pegar».
Muitos tipos de cancro, em determinada fase da sua gestação, apresentam como atividade fundamental a proliferação descontrolada de células. «Se nós conseguirmos perceber como é que as células se dividem de modo a controlar o processo, esperamos um dia curar alguns tipos de cancro», assume.
Partindo da premissa constante de só conseguir chegar ao desconhecido se o investigar, aponta como objetivo primário o desenvolvimento de cada vez mais terapias, cada vez mais específicas e diretas e com menos efeitos secundários do que as que existem atualmente. É também por isso que vê todo o interesse em fazer investigação em células vivas, para compreender melhor a cinética de todo o processo. «Os processos biológicos são dinâmicos. Essa é uma variável com a qual muito pouca gente trabalha, mas inevitavelmente teremos que perceber», conclui.

O futuro

Hélder Maiato considera muito importante que se acredite na investigação feita em Portugal. «É preciso ter a coragem de inovar cá, melhorar o sistema e que as pessoas vejam isso como objetivo», afirma. Não surpreende portanto que as suas próximas investigações continuem localizadas no IBMC. Em curso está o objetivo de perceber de que forma a qualidade da transmissão de informação genética é importante para a vida, mas também quando ela falha. Fazer essa ligação para perceber como atuar para responder a essas questões. Por aí passará o futuro próximo da sua equipa.
Não surpreende também que tenha como ambição para o projeto a afirmação em termos internacionais. Ganhar dimensão através de um trabalho de qualidade e, consequentemente, educar pessoas e atrair pessoas de diferentes áreas para a biologia. «Ela só ganha com isso», remata.

* Artigo publicado em 2007